segunda-feira, maio 24, 2004

A verdade toda e' que

não leio somente na cama (ver post "Prazeres de cama"), já li enquanto viajava de comboio. Como em Portugal não existem verdadeiramente distancias dignas de grandes viagens, a CP faz o favor de prestar um serviço que permite ler um livro de 400 páginas com alguma tranquilidade enquanto se vai dando uma espreitadela pela paisagem. Prazer em risco, porque infelizmente a ferroviária portuguesa tem evoluído e qualquer dia ler no comboio só mesmo a crónica breve do EPC no Publico mais o tempo de introspecção cuidada acerca da mesma, e ala que se faz tarde. Quando olho a minha estante identifico com alguma vergonha (nem consigo encarar as lombadas de frente) uns tantos livros lidos num terceiro local e que constitui um real purgatório para a fragilidade física dos livros: a praia. Ler na praia constitui uma ofensa corporal grave ao livro. Por isso mesmo, quando me aparvalho e submeto o livro ao sol, 'a areia, ao risco dos pingos de água salgada, e 'a minha frequente falta de concentração motivada pelos biquinis, escolho sempre portentos para levar. Já estou mesmo a ver. Se decidisse fazer-me acompanhar por um livro da MRP regressava do mergulho e a substancia descrita estaria desfeita em grãos de areia. O Mário Vargas Llosa sempre e' mais resistente 'as agruras balneares.

-E da vida também?
-Sim, da vida também.

No outro dia um parvo qualquer disse-me em tom declamatório: «Ai a literatura... O que faríamos nós sem a literatura...!», destes fujo, são os piores. Não percebem nada. E' claro que toda a gente pode levar a cabo alguma actividade sem nunca ter posto a vista em cima de um livro aberto, e mesmo assim com assinalável sucesso. Ele dizia a frase feita porque devia ser um poucochinho. Comparados com a literatura podemos ser ou não ser, depende da transfiguração das duas partes. Se o tipo não se identificava e colocava a literatura num altar, qual santo de pau oco, então que vá ler tudo outra vez. Concordo que podemos e devemos amesquinhar-nos um pouco perante Joseph K., Lituma ou Murphy mas existem limites a partir dos quais se entra na crendice. E como se sabe crer e' fazer absolutamente nada. O conhecimento, todas as duvidas e certezas pormenorizadamente exploradas, a loucura e a verdade, o impulso, usar a vida para perceber o que dela sai. O gajo? Um seguidor do vazio. Mais um dependente, infâmia maior, da literatura. Escolhia errado, era o que fazia.